Filosofia na veia

 JUÍZO DE FATO E JUÍZO DE VALOR:

Se dissermos: “Está chovendo”, estaremos enunciando um acontecimento constatado por nós, e o juízo proferido é um juízo de fato. Se, porém, falamos: “A chuva é boa para as plantas” ou “A chuva é bela”, estaremos interpretando e avaliando o acontecimento. Nesse caso, proferimos um juízo de valor. Juízos de fato são aqueles que dizem o que as coisas são, como são e por que são. Em nossa vida cotidiana, mas também na metafísica e nas ciência, os juízos de valor são avaliações sobre coisas, pessoas, situações e são proferidos na moral, nas artes, na política, na religião. Juízos de valor avaliam coisas, pessoas, ações, experiências, acontecimentos, sentimentos, estados de espírito, intenções e decisões como bons ou maus, desejáveis ou indesejáveis. Não se contentam em dizer como algo é, mas se referem a que algo deve ser. Dessa perspectiva, os juízos morais de valor são normativos, isto é, enunciam normas que dizem como devem ser os bons sentimentos, as boas intenções e as boas ações, e como devem ser as decisões e ações livres. São normas que determinam o dever ser de nossos sentimentos e de nossos atos. São por isso juízos que enunciam obrigações e avaliam intenções e ações segundo o critério do correto e do incorreto. Os juízos morais e de valor nos dizem o que são o bem, o mal, a liberdade, a felicidade. Os juízos morais normativos nos dizem que sentimentos, intenções, atos e comportamentos devemos ter ou fazer para agirmos livremente e para alcançarmos o bem e a felicidade. Enunciam também que atos, sentimentos, intenções e comportamentos são condenáveis ou incorretos do ponto de vista moral. Como se pode observar, senso moral e consciência moral são inseparáveis da vida cultural, uma vez que esta define para os membros de uma cultura os valores positivos e negativos que devem respeitar e desejar ou detestar e desprezar. Qual a origem da diferença entre juízos de fato e de valor? A diferença entre a natureza e a cultura. A primeira é constituída por estruturas e processos necessários, que existem em si e por si mesmos, independentemente de nós: a chuva, por exemplo, é um fenômeno meteorológico cujas causas e cujos efeitos necessários não dependem de nós e que apenas podemos constatar e explicar. Por sua vez, a cultura nasce da maneira como os seres humanos interpretam a si mesmos e suas relações com a natureza, acrescentando-lhes sentidos novos, alterando-a por meio do trabalho e da técnica, dando-lhes significados simbólicos e valores. Dizer que a chuva é boa para as plantas pressupõe a relação cultural dos humanos com a natureza por intermédio da agricultura. Considerar a chuva bela pressupõe uma relação valorativa dos homens com a natureza. A chuva é natural; que seja boa ou bela é uma avaliação ou interpretação cultural. Frequentemente não notamos a origem cultual dos valores morais, do sendo moral e da consciência moral porque somos educados neles e para eles, como se fossem naturais, existentes em si e por si mesmos. Para garantir a manutenção dos padrões morais através do tempo e sua continuidade de geração a geração, as sociedades tendem a naturalizá-las. A naturalizaçõ d existência moral esconde, portanto, a essência da ética: o fato de ela ser criação histórico-cultural. Para reconhecermos isso, basta, aliás, considerarmos a própria palavra moral: ela vem de uma palavra latina, mos, moris, que quer dizer: “o costume”, portanto, os hábitos intituídos por uma sociedade em condições históricas determinadas.

A DIFERENÇA ENTRE ÉTICA E MORAL:

Ética (do grego ethos ήτόσ, que significa modo de ser, caráter, comportamento) é o ramo da filosofia que busca estudar e indicar o melhor modo de viver no cotidiano e na sociedade. Diferencia-se da moral, pois enquanto esta se fundamenta na obediência a normas, tabus, costumes ou mandamentos culturais, hierárquicos ou religiosos recebidos, a ética, ao contrário, busca fundamentar o bom modo de viver pelo pensamento humano. Moral é o conjunto de normas que a sociedade elabora para regulamentar o comportamento dos indivíduos que compartilham a vida social. Ética é o conjunto das reflexões sistemáticas sobre a moral, elaborada no curso da história.

QUESTÕES GERAIS SOBRE ÉTICA E MORAL

O problema da ética e da moral estão presentes em quase todos os segmentos da sociedade. É comum identificarmos estes termos sendo usados em jornais, revistas, noticiários e até mesmo em nossas conversas do dia-a-dia. Por isso, a partir da realidade, precisamos construir uma reflexão filosófica sobre o assunto. Se no senso comum ética e moral parecem possuir o mesmo significado, na perspectiva filosófica, alguns autores atribuem algumas diferenças entre os dois termos. Ética é a parte da filosofia que procura elaborar uma reflexão sobre os problemas fundamentais que dirigem o agir humano, ou seja, ela busca as razões pelas quais algo é visto como bom ou mau pelos homens. Já a moral, é vista como o conjunto de costumes ou regras destinadas a assegurar uma vida em comum justa e harmoniosa. No entanto, tanto ética quanto moral são termos muito próximos. Neste caso, podemos realizar uma aproximação entre estes dois conceitos pela origem da etimologia das duas palavras. Ética, vem do grego, éthos, que no latim foi traduzido como mós, moris (daí vem moral). Neste caso, ética e moral referem-se ao conjunto de costumes tradicionais de uma sociedade e, como tais, são considerados valores e obrigações para a conduta de seus membros. A filosofia moral ou ética nasce quando, além das questões sobre os costumes, também se busca compreender o caráter de cada pessoa, isto é, o sendo moral e a consciência moral de cada indivíduo. Quando falamos em ética precisamos contar com a existência de um agente ou sujeito ético (alguém que pratique a ação) e pelos valores e obrigações que formam o conteúdo das condutas morais, o que chamamos de virtude. Em outras palavras, dentro da ética precisamos ter um sujeito moral que age com base em certos valores e princípios. O sujeito moral precisa: ser consciente de si e dos outros (reconhecer o outro também como sujeito); ser dotado de vontade (capaz de controlar e orientar desejos, impulsos, tendências, sentimentos); ser responsável (reconhecer-se como autor da ação, responder por ela) e; ser livre (ser a causa de sua ação, sem sofrer alterações externas). Os valores ou as virtudes são vistas como aquilo que é excelente, bom, ou seja, o que deve ser escolhido por todos. Ambos estão intimamente ligados à questão cultural. Neste caso, faz-se necessário apurar um pouco os motivos pelos quais algo é visto como bom, como valoroso, como virtuoso.  ARANHA, capítulo 17: Entre o bem e o mal – p. 212 a 221 (exercícios de 1 a 4).

 A ÉTICA NO CONTEXTO DAS RELAÇÕES

TEXTO: O retrato de Dorian Gray Oscar Wilde.

Que adianta você me dizer que resolveu agora ser bom? – exclamou Lorde Henry, molhando seus alvos dedos em uma vasilha de cobre vermelho, cheia de água de rosas. – Você já é perfeito. Não mude, por favor. Dorian Grey meneou a cabeça. – Não, Harry, durante a minha vida, tenho praticado atos terríveis. Ao pretendo voltar a isso. Comecei ontem minhas boas ações. – Onde você estava ontem? – No campo, Harry, sozinho em uma pequena estalagem. – Meu caro amigo – disse Lorde Henry, sorrindo – todo mundo pode ser bondoso no campo. Lá não há tentações. E esta é justamente a razão pela qual as pessoas que vivem fora da cidade não são absolutamente civilizadas. A civilização não é, de maneira nenhuma, uma coisa fácil de se alcançar. Há apenas duas maneiras de chegar a ela. Uma é a cultura e a outra a corrupção. Ao,a gente do campo não tem oportunidade de travar conhecimento com qualquer das duas maneiras; por isso, fica completamente estagnado. – A cultura e a corrupção – repetiu Dorian Gray, como um eco – Conheci um pouco de ambas. E agora horrorizo-me ao pensar que as duas possam estar lado a lado. Tenho um novo ideal, Harry. Vou mudar: creio até que já mudei. Não falemos mais nisso e não ente mais persuadir-me de que a primeira boa ação que pratico depois de muitos anos, que o primeiro sacrifício que faço, embora pequeno, seja na verdade uma espécie de pecado. Quero ser melhor do que sou. Hei de ser melhor.

Como o texto trabalha a questão da vida justa (ética) com a questão da convivência? O que significa dizer que a ética só existe no contexto das relações?

A ÉTICA NA HISTÓRIA:

ARISTÓTELES

A primeira reflexão filosófica sistemática sobre a questão da ética e da moral é, sem dúvida alguma, a obra de Aristóteles intitulada Ética a Nicômaco. Considerada por muitos como uma das principais obras deste filósofo a Ética a Nicômaco, apesar de já ser considerada como uma reflexão ultrapassada, ainda é vista como um importante passo na construção da teoria ética. A obra só pode ser entendida dentro de um ponto básico e original da teoria aristotélica, a saber, a diferença entre saber teórico e saber prático, este último englobando as reflexões sobre o problema da ética. Além dessa novidade, Aristóteles foi também o primeiro filósofo a distinguir a ética da política, sendo que a primeira exprime a ação voluntária e moral do indivíduo, enquanto a segunda exprime as vinculações do indivíduo com a sociedade. Ética é uma palavra que pode ser definida como a ciência da conduta. Designa as concepções morais nas quais um ser humano baseia e orienta sua vida, sua conduta. Para Aristóteles o homem tem um único objetivo a ser perseguido:o bem. O bem, segundo o pensador grego, só pode ser alcançado meidante a prática da virtude, considerada como uma qualidade potencial que só se realiza mediante a ação realizada com justiça. A virtude não é um dom e pode ser adquirida mediante o ensino. Para isto o homem precisa ser educado, justo, comedido e razoável. Ela opõe-se ao mal e possui um valor mediador que interesse à Aristóteles. Neste caso, surge a máxima aristotélica de que “a virtude está no meio, sendo que o homem justo não peca nem por falta, nem por excesso”. Para agir com virtude, Aristóteles afirma que o homem deve buscar encontrá-la pela razão, a fim de que sua racionalidade possa acalmar a paixões e os desejos humanos para que estes não interfiram na escolha humana. Note-se aqui a relação feita por Aristóteles entre ética, escolha, razão, intenção e vontade. A Ética a Nicômaco é considerada também o livro das virtudes, pois é a obra na qual Aristóteles faz uma menção clara e longa de várias virtudes, com os respectivos vícios. Abaixo citamos um rápido exemplo: Virtude Vício por excesso Vício por falta coragem temeridade covardia amizade condescendência tédio magnificência vaidade Modéstia veracidade orgulho descrédito próprio Assim, de acordo com a teoria aristotélica, usa da razão para atingir o meio termo, ou seja, o equilíbrio, se educando para agir assim sempre, mediante o esforço para que o bem agir se torne um hábito. Fazer com que a ação ética se torne um hábito é importante para Aristóteles pois isso irá garantir que a ação seja boa sempre, e não somente as vezes. A obra analisada possui também alguns temas periféricos, como, a importância da amizade e do amor para a vida ética. Segundo o autor, a amizade é uma virtude fundamental, necessária para a vida. É por meio dela que o homem pode se salvar e buscar a felicidade. Homens bons são amigos. Para isso, o filósofo apresenta os vários tipos de amizade, argumentando que a verdadeira amizade poupa erros, impele belas ações e constitui a força de amigos. Por fim, no último capítulo da obra, Aristóteles trata da felicidade, o bem supremo procurado por todos os homens. Segundo ele, a felicidade é o grande prêmio para todos aqueles que se esforçam para criar o hábito de serem éticos e justos. O exercício da virtude pode dar-se pelo prazer. Para ter uma vida feliz, os homens escolher o que é agradável e evitam a dor. O prazer é completo a todo o momento. Não há movimento ou geração no prazer, pois ele é um todo. O prazer completa a atividade como um fim alcançado. Este é, sem dúvida, um tema muito discutido dentro da teoria aristotélica. Em resumo, podemos traçar 3 pontos fundamentais da Ética a Nicômaco:

todo homem deseja o bem, e este só pode ser alcançado pela prática da virtude.

a virtude é uma excelência alcançada pelo caráter, pelo esforço e pela prática constante da conduta ética.

a conduta ética é aquela em que o agente age com consciência e com vontade, fundamentando sua ação na justiça. Os

Dez mandamentos da Ética (Síntese dos 10 livros da Ética a Nicômaco):

1) Fazer o bem

2) Agir com moderação

3) Saber escolher

4) Praticar as virtudes

5) Viver a justiça

6) Valer-se da razão

7) Valer-se do coração

8) Ser amigo

9) Cultivar o amor

10) Ser feliz

A ÉTICA NA HISTÓRIA:

CRISTIANISMO

O que diferencia radicalmente a ética cristã da ética grega são dois pontos: a) Abandono do racionalismo: a ética cristã deixou de lado a ideia de que é pela razão que se alcança a perfeição moral e centrou a busca dessa perfeição no amor a Deus e na boa vontade. b) Emergência da subjetividade: acentuando a tendência já esboçada na filosofia de estóicos e epicuristas, a ética cristã tratou a moral do ponto de vista estritamente pessoal, como uma relção entre cada indivíduo e Deus, isolando-o de sua condição social e atribuindo à subjetividade uma importância até então desconheida. Os filósofos medievais herdaram alguns elementos da tradição filosófica grega, reconfigurando-os no interior de uma ética cristã. Santo Tomás de Aquino (século XIII), por exemplo, recuperou da ética aristotélica a ideia de felicidade com fim último do ser humano, mas critianizou essa noção ao identificar Deus como a fonte dessa felicidade. Santo Agostinho (século III) transformou a ideia de purificação da alma, da filosofia de Platão, na ideia da necessidade de elevação ascética para compreender os desígnios de Deus. Também a ideia de imortalidade da alma, presente em Platão, foi retrabalhada por Agostinho na perspectiva cristã. Mas a ética agostiniana destaca-se por outro conceito. Ao tentar explicar como pode existir o mal se tudo vem de Deus, Agostinho introduz a ideia de liberdade como livre-arbítrio, isto é, a noção de que cada indivíduo pode escolher livremente aproximar-se de Deus ou afastar-se dele. O afastamento de Deus é que seria o mal, de acordo com o filósofo. Com a noção de livre arbítrio, de escolha individual, Agostinho acentuou o papel da subjetividade humana nas coisas do mundo. O livre arbítrio é o meio pelo qual o ser humano realiza sua liberdade, MS, de acordo com a concepção cristã, cada indivíduo pode usá-lo bem ou mal – e é no mau uso que estaria a origem de todo o mal. De outro lado, o conceito de livre-arbítrio esvaziou a noção grega de liberdade como possibilidade de realização plena dos indivíduos em seu meio social. Em outras palavras, diminuiu a importância da dimensão social da liberdade, e esta passou a ter um caráter mais pessoal, subjetivo e individualista.

A ÉTICA NA HISTÓRIA:

KANT

– A Crítica da Razão Pura (CRP) ocupa-se da razão teórica, ou seja, da razão que busca conhecer o que as coisas são; a Crítica da Razão Prática (CRPr) ocupa-se da razão prática, ou seja, da razão que enuncia o que devemos ser e que orienta ou determina nosso agir.

– Enquanto a CRP ocupa-se do ser e do real, a razão prática ocupa-se do dever ser e do ideal.

– Além disso, a razão teórica, limita-se a conhecer o mundo, a razão prática determina a ação moral.

– Objetivo da moral kantiana = mostrar as condições de possibilidade para a realização da liberdade de modo que a liberdade individual, ou seja, a liberdade de cada um, seja compatível com a liberdade de todos.

– Originalidade da moral kantiana = dar como solo da ação moralmente boa a subjetividade e sua vontade autônomas, introduzindo uma compreensão do conceito de moralidade, inovadora em relação a toda a tradição filosófica anterior. Dessa forma, Kant rompe de um lado com a fundamentação religiosa e transcendente da moral; de outro lado, rompe igualmente com a fundamentação naturalista e empirista da moral.

– A fundamentação religiosa da moral, tal como se dá, por exemplo, na religião cristã, tem como base da moral os mandamentos de Deus revelados ao homem. Sendo assim, a ação moralmente boa é o agir correspondente a esses mandamentos e a ação imoral é o agir que se opõe a esses mandamentos. Ora, tais mandamentos divinos são fundamentos morais metafísicos, transcendentes e exteriores ao homem, ao sujeito e à sua vontade. Por conseqüência, nossa vontade e nós mesmos somos determinados por uma condição exterior, e por isso, somos heterônomos e não autônomos, ou seja, agimos segundo uma lei que não provém de nós mesmos e de nossa vontade. É por isso que Kant critica o fundamento religioso da moral, pois este impede uma ação moral autônoma.

– Segundo a filosofia naturalista e empirista o homem é um ser da natureza ou um ser natural, como qualquer outro ser vivo. Dessa forma a ação humana é governada por paixões, interesses, busca do prazer, fuga do desprazer, inclinações e satisfação de suas necessidades. Por isso são as paixões, inclinações, sentimentos e prazer que devem fundar a ação moralmente boa. Kant não contesta que o homem seja um ser natural e sensível, por isso, não contesta que, por isso, a ação humana seja condicionada por paixões, inclinações, satisfação de interesses e busca do prazer. Todavia, Kant contesta que o homem seja apenas um ser natural, ou seja, inteiramente determinado pelas condições naturais e sensíveis e que a ação moral tenha de ter por fundamento a sensibilidade e, portanto a paixão, o sentimento e o interesse. Uma moral fundada na natureza e nas inclinações significa que nossa vontade e nós mesmos somos determinados por uma condição exterior e por isso somos heterônomos e não autônomos, ou seja, agimos segundo uma lei que não provém de nós mesmos e de nossa vontade. Daí a crítica kantiana ao fundamento natural e empírico da moral, pois este impede uma ação moral autônoma.

– Embora distintas, a moral fundamentada na religião e a moral fundada na natureza têm um ponto em comum: ambas compreendem a ação moral como fundada em uma condição exterior ao sujeito moral e à sua vontade e por isso são exemplos distintos de uma moral heterônoma. De um lado a lei de Deus; de outro a lei da natureza.

– Kant opõe particularmente à felicidade como fundamento último da moral. E apresenta as seguintes razões: a satisfação das inclinações de nossa felicidade não permite fundar nenhuma constante, pois a felicidade não é universal, pois suas condições e conteúdos são variáveis entre os homens. Finalmente, a felicidade só conduz a máximas ou a imperativos hipotéticos (“se queres ser feliz, então faça isso e não aquilo!”). – Como é possível uma moral inteiramente fundada no sujeito e sua vontade autônomos?

– A primeira condição é que o princípio da ação moral esteja fundado inteiramente em nossa razão pura e a priori. Tal princípio moral puro e a priori, fundado em nossa própria razão é denominado por Kant de lei moral. A lei moral permite, de um lado, colocar-nos acima das condições naturais, acima de nossa sensibilidade, acima de nossas paixões, sentimentos e inclinações; de outro lado, deixaremos de subordinar nossa ação nos mandamentos revelados por um Deus transcendente.

– A segunda condição é a liberdade da vontade ou a vontade livre, faculdade ou poder de determinar nossa ação e conduzir nosso agir segundo esse princípio moral inteiramente racional colocando-nos acima de todas determinações naturais fora de nós e acima das paixões e inclinações dentro de nós.

– O ser humano é condicionado (devido à sua natureza, corporeidade), mas também é livre. O homem é livre e condicionado em dimensões diferentes: no plano empírico fenomenal nós somos condicionados. Em relação à esfera numênica, pode-se postular a liberdade humana.

– Com relação ao postulado da liberdade, é óbvio que não podemos demonstrar que somos livres, ou seja, não podemos demonstrar a liberdade em nós, todavia, podemos e devemos postular a liberdade em nós, e, portanto, devemos postular que não nos reduzimos meramente a um ser fenomenal e natural. Tal postulado da liberdade baseia-se no fato de sermos capazes, através da razão pura, de elaborar a lei moral.

– A moral empírico-naturalista e a moral religiosa: o imperativo hipotético ou condicionado

– A moral empírico-naturalista e o moral empírico religiosa somente são capazes de formular imperativos hipotéticos ou máximas. Isso significa que ações morais como cumprir deveres e obrigações, por exemplo, são apenas meios para se atingir um fim mais elevado e mais importante, o da felicidade ou da vida eterna. Dessa forma, a ação moral não é um fim nem um valor em si mesmos, mas um meio ou condição para se atingir um fim mais importante.

– Kant critica os imperativos hipotéticos ou máximas morais porque estes são meras regras de utilidade e simples meios para realizar fins empíricos, por isso são sempre relativos a esses fins ou condicionados por eles e mudam conforme a mudança dos fins. Logo, imperativos hipotéticos não são absolutos (mas relativos); condicionados (e não incondicionados); particulares (e não universais); a posteriori (ou seja, determinados pelos fins, não sendo por isso a priori). – A moral kantiana: o imperativo categórico

– A lei moral ou o imperativo categórico (diferente do imperativo hipotético), pois é a priori ou puramente racional correspondendo a uma lei formal.

– O Imperativo Categórico é também um mandamento incondicionado, todavia, diferentemente do mandamento religioso, não está fundado na revelação de uma Deus transcendente, mas tão somente na luz de nossa razão que nasce de nós mesmos.

– Em outras palavras, Kant exclui todo o fundamento religioso da moral, ou seja, não encontra em Deus nem nas religiões reveladas o princípio da distinção entre o bem e o mal; essa distinção encontra seu fundamento no próprio sujeito moral.

– O fundamento da ação moral é o próprio sujeito.

 AUTONOMIA = lei fundada em si mesmo = o fundamento da lei que orienta nossa ação reside em nós mesmos. DIFERENTE DE HETERONOMIA – Kant não se opõe ao conteúdo da moral religiosa, mas sim nos seus fundamentos que são externos a nós. – O 1º ponto da moral kantiana é a construção de uma moral fundada na nossa subjetividade.

– O 2º ponto é a oposição de Kant à moral iluminista que era fundamentada numa subjetividade empírica, subordinando tudo à felicidade aos nossos interesses. A base desta moral é a sensibilidade (sentimento). – Kant se esforça para colocar o homem como fundamento primeiro e último de toda ação humana.

– Ele admite que o homem é condicionado pela natureza, pela sociedade, etc… No entanto o homem não é apenas isso. Existe no ser humano um poder de se colocar a cima de qualquer força externa. Este poder Kant chama de liberdade. – Se a experiência e a religião não são fundamentos para nossa ação, Kant apresenta um fundamento que brota da própria racionalidade do homem. É um princípio, um juízo puro, sintético, ampliativo, verdadeiro, a priori. Somente na esfera mora que um juízo desta maneira pode ser concebido, pois aqui, ao invés de pensarmos o que é, nós pensamos no que deve ser. A metafísica clássica não é possível, contudo é possível a METAFÍSICA DOS COSTUMES. – Para isso, Kant apresenta somente um princípio: “Agir tomando sempre como base o homem como fim último e nunca como meio”.

– Este juízo distingue o bem do mal. A essência do mal está na “coisificação” do outro, pois isto prejudica a subjetividade e a liberdade do outro.

– Quando se coisifica o outro eu tenho como conseqüência não a justiça divina, ou o castigo eterno, mas a recíproca coisificação de mim mesmo.

– A essência do bem para Kant é a liberdade. A liberdade individual do eu deve ser compatível com a realização da liberdade individual do outro. O desafio está em ser livre sem negar a liberdade do outro. Para isso, basta seguir a lei moral estabelecida por Kant. – É moral tudo o que pode ser universalizado, ou seja, pode ser feito por todas as pessoas. O imoral é o particular, aquilo que só eu posso fazer.

– A lei moral de Kant nos mostra três coisas: – o que é o bem e o mal – o fundamento da nossa ação – o que é moral e imoral. – Este princípio ético é um IMPERATIVO (mandamento) CATEGÓRICO (tem como fim ele mesmo, sem se preocupar com nada exterior). Este princípio é a liberdade.

– Para o homem ser livre, ele paga um preço muito alto, o da própria liberdade. A realização da liberdade exige muitas vezes sofrimento, punição, prejuízo, infelicidade. Liberdade e felicidade não estão no mesmo plano, não se realizam juntas. Deve se escolher entre uma ou outra. Este é o drama, a tragédia da existência humana: não podemos ser livres e felizes ao mesmo tempo.

– Nesta esfera aqui, o imperativo categórico nunca poderá ser realizado, porque somos condicionados, finitos, trazemos o mal dentro de nós e não temos uma vontade santa.

– Mas, se não iremos nos realizar aqui, qual a utilidade da lei moral? – ela é orientadora: permite que direcionemos nossa ação. Nos mostra como devemos agir, apesar de não realizarmos isso. – somos seres finitos tanto no plano epistemológico quanto no plano moral. Somos atravessados pelo mal. Isso nos leva a um aperfeiçoamento. – Se a lei moral e prazer, liberdade e felicidade não são compatíveis aqui, o que dizer para uma pessoa que busca estas coisas juntas? Aqui isso não é possível, mas numa esfera que ultrapassa espaço e tempo nós podemos esperar, acreditar na realização da liberdade e da felicidade juntas. Por isso, pode-se afirmar que como postulado a imortalidade da alma (continuar o processo de aperfeiçoamento moral pós-morte) e a existência de Deus (um ser bom e justo, capaz de unir liberdade e felicidade). Deus irá recompensar a liberdade com a felicidade. – A reflexão moral de Kant supõe Deus e a alma imortal que foram excluídos da CRP. Na moral os dois têm lugar privilegiado. No entanto, com uma diferença: primeiro Kant funda a moral em nós. Depois que ele apela para Deus e a alma para a realização da moral.

– Liberdade, Deus e a imortalidade da alma são postulados (impossíveis de uma determinação e demonstração racional).

– Kant se encaminha da esfera moral para a esfera jurídica, política. É preciso uma LEI POSITIVA e um ESTADO PUNITIVO, pois a realização da liberdade individual e a de todos só são possíveis frente à lei que aqui são EXTERNAS.

– O Estado desempenha então um papel fundamental. A Filosofia Moral de Kant e a Filosofia Política e do Direito, apesar de serem diferentes são complementares para este pensador.

– Só a consciência individual não basta. É preciso o direito e o Estado. Todo o direito moderno tem suas bases em Kant.

TEXTO: Só de Sacanagem

Elisa Lucinda

Meu coração está aos pulos! Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais. Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais. Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz. Meu coração tá no escuro. A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: – “Não roubarás!” – “Devolva o lápis do coleguinha!” – “Esse apontador não é seu, minha filha!” Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas-corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar, e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem! Dirão: – “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba.” E eu vou dizer: – “ Não importa! Será esse o meu carnaval. Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.” Dirão: – “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”. E eu direi: – “Não admito! Minha esperança é imortal!” E eu repito, ouviram? “Imortal !!!” Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final.

Obs : Extraido

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